Julho: Um Novo Ano-Novo?
Sem esperar datas, a revisão de rotas no meio do ano pode destravar mudanças possíveis agora
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Julho chegou. Para muita gente, isso significa férias escolares, uma pausa na rotina ou, pelo menos, uma desaceleração temporária. E foi justamente pensando nisso que me fiz uma pergunta: por que não tratamos julho como tratamos janeiro?
Todos os anos, quando dezembro termina, somos convidados a refletir. Fazemos balanços, revisitamos conquistas, avaliamos frustrações, criamos metas e prometemos mudanças. O Ano-Novo se tornou, culturalmente, um marco para recomeços.
O que me intriga é que parecemos acreditar que essa oportunidade só existe uma vez por ano. Como se os outros 364 dias fossem apenas uma longa espera até a próxima chance de reorganizar a vida.
Já conversamos outras vezes nesta coluna sobre a importância dos rituais. Eles têm valor psicológico, organizam experiências e ajudam a marcar transições.
O problema começa quando acreditamos que a mudança depende deles. Quando condicionamos nossas decisões a uma data específica, corremos o risco de adiar transformações que poderiam começar hoje.
Julho me parece um excelente provocador dessa reflexão. Seis meses já ficaram para trás e outros seis ainda estão por vir. Estamos exatamente na metade do caminho.
É uma oportunidade valiosa para olhar para o que aconteceu até aqui e perguntar: o que ainda faz sentido? O que precisa ser ajustado? O que merece mais energia? O que já cumpriu seu papel e pode ser deixado para trás?
Confesso que não sou uma pessoa que espera janeiro para fazer esse exercício. Tenho um caderno que me acompanha diariamente. Todas as manhãs revisito a lista do dia anterior.
Algumas tarefas permanecem porque continuam importantes. Outras desaparecem porque perderam o sentido. Novas ideias entram, prioridades mudam de lugar e aquilo que se tornou urgente recebe mais atenção. É um exercício simples, mas poderoso. Ele me lembra que a vida está em constante movimento e que eu também posso estar.
O filósofo John Dewey defendia que aprendemos pela experiência refletida. Não basta viver; é preciso pensar sobre o que foi vivido.
Talvez seja por isso que os momentos de revisão sejam tão importantes. Não porque nos permitem controlar o futuro, mas porque nos ajudam a compreender melhor o presente. E essa compreensão torna as escolhas mais conscientes.
No fundo, a grande questão não é julho. Nem janeiro. Nem qualquer outra data do calendário. A questão é reconhecer que os recomeços não pertencem aos meses. Eles pertencem às pessoas.
O calendário pode oferecer convites, mas a decisão de mudar continua sendo nossa.
Então, se julho servir para alguma coisa, que seja para isso: lembrar que ainda há tempo.
Tempo para corrigir rotas, abandonar metas que já não fazem sentido, criar projetos novos, recuperar sonhos antigos e experimentar caminhos diferentes.
Afinal, recomeçar não é um privilégio reservado ao primeiro dia do ano. É uma possibilidade disponível toda vez que acordamos.
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