E se o Dia das Crianças fosse também um dia de luta?
Violência, negligência e abandono mostram que a proteção à infância precisa ir além das comemorações e ser uma responsabilidade de todos os dias
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
Siga o Tribuna Online no Google
O Dia das Crianças passou. As vitrines se encheram de brinquedos, as redes sociais de sorrisos, as praças de brincadeiras e as casas de presentes. O comércio agradeceu. E que bom que tantas crianças puderam celebrar! Mas, enquanto algumas escolhiam brinquedos, outras talvez estivessem tentando sobreviver no lugar onde deveriam se sentir seguras.
Ao longo de mais de 20 anos como psicóloga, alguns atendimentos me ensinaram que a infância nem sempre é esse lugar colorido que os adultos gostam de recordar. Nem toda criança tem festa, presente ou alguém que a faça se sentir amada. Algumas têm medo justamente de quem deveria protegê-las.
Os números confirmam essa realidade. Segundo dados do Ministério da Saúde analisados pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, o Brasil registrou 165.413 notificações de violência contra crianças e adolescentes em 2025. Entre 2020 e 2025, foram 685.629 notificações. Violência sexual, negligência, abandono e agressões físicas estão entre os registros. E atenção: notificações não representam necessariamente casos comprovados, mas revelam a dimensão de um problema que não podemos ignorar.
A psicóloga Maria Amélia Azevedo, pesquisadora do Instituto de Psicologia da USP, dedicou parte de sua trajetória ao estudo da violência doméstica contra crianças e adolescentes. Seu trabalho nos ajuda a compreender que a violência não se limita às marcas visíveis no corpo. Ela também se manifesta nas relações de poder, na opressão e nas agressões psicológicas que podem silenciar uma infância inteira.
O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que família, sociedade e poder público compartilham a responsabilidade de assegurar os direitos da infância. Está na lei. Mas será que isso já se tornou uma prática cotidiana? Proteger uma criança não é apenas alimentá-la, matriculá-la na escola ou comprar-lhe um presente. É também não violentá-la, não negligenciá-la, não humilhá-la e não fechar os olhos quando outra pessoa o faz.
Temos, no Espírito Santo, uma ferida que se transformou em símbolo de luta: o caso Araceli, menina de oito anos sequestrada, violentada e assassinada em 1973, em Vitória. Sua história marcou a criação do 18 de Maio como Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Uma data necessária, mas que não pode nos fazer esquecer que a proteção precisa existir todos os dias.
Comemorar é bonito. Ver uma criança sorrir é uma alegria legítima. Mas por que não ampliar o sentido do Dia das Crianças? Por que não fazer dele também um convite à conscientização, à denúncia e à mobilização por uma infância protegida?
Não se trata de acabar com a festa, mas de entender que ela só será verdadeiramente coletiva quando nenhuma criança precisar esconder o choro para sobreviver na própria casa.
Que o Dia das Crianças seja de todas elas. Das que ganharam presentes e das que precisam de proteção. Das que brincam livremente e das que ainda esperam que um adulto perceba seu sofrimento.
Porque infância não deveria ser privilégio de quem teve sorte. Deveria ser direito de todas as crianças.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
Olhares Cotidianos, por Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
ACESSAR
Olhares Cotidianos,por Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
PÁGINA DO AUTOR