A democracia acaba na porta de casa?
Em meio ao segundo turno, artigo discute os limites entre defender ideias, impor convicções e ferir laços afetivos
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Estamos a poucos dias do segundo turno das eleições. Em breve, decidiremos quem nos governará. E, confesso, há algo pelo qual também agradeço: o fim de uma temporada em que parece que todo mundo precisa convencer alguém de alguma coisa. Como se viver já não exigisse tanto, agora precisamos justificar o que pensamos, explicar o que dizemos e até aquilo em que acreditamos.
Durante esses dias, vimos movimentos de convencimento, tentativas de conquistar votos e pessoas empenhadas em mudar a opinião alheia. A política faz parte da democracia. O problema começa quando perguntamos: a que custo? Quantas amizades precisam acabar? Quantas famílias precisam se dividir? Quantas pessoas precisam ser humilhadas, agredidas verbal ou fisicamente para que alguém se sinta vitorioso?
Hannah Arendt, filósofa política, compreendia a pluralidade como condição fundamental da vida política. Somos diferentes em nossas opiniões, experiências e maneiras de compreender o mundo. E ainda bem! Imagine a pobreza de uma sociedade em que todos pensassem exatamente da mesma forma. A diferença não é um defeito a corrigir, mas uma condição da convivência humana.
Entretanto, em tempos de polarização, discordar parece ofensa, conversar vira disputa e convencer passa a significar vencer o outro. O pensamento crítico cede espaço ao fanatismo, e o pertencimento a um grupo parece exigir que abandonemos a capacidade de questionar. Já não basta acreditar em alguma coisa: precisamos fazer com que todos acreditem também.
O filósofo político Norberto Bobbio, ao refletir sobre a democracia, destacou a importância das regras que permitem a convivência entre posições divergentes. Democracia não significa ausência de conflitos, mas a possibilidade de enfrentá-los sem eliminar o adversário. Afinal, quem pensa diferente não se torna automaticamente inimigo, assim como discordar de alguém não nos autoriza a desumanizá-lo.
A Constituição brasileira assegura a liberdade de manifestação do pensamento e protege as convicções políticas e filosóficas. Isso não significa que a liberdade autorize ameaças, agressões ou violações de direitos. Significa compreender que ninguém precisa pensar como nós para merecer respeito. Há uma diferença importante entre defender uma ideia e tentar impor essa ideia ao outro.
Eis a contradição: podemos defender a democracia nas urnas e negá-la nas relações cotidianas. Exigimos liberdade para expressar nossas convicções, mas tentamos silenciar as alheias. Falamos em respeito enquanto humilhamos quem discorda. Afinal, de que vale defender a liberdade de escolha se não reconhecemos esse mesmo direito nas pessoas que estão ao nosso redor?
Não se trata de abandonar nossas posições, fingir neutralidade ou deixar de lutar por aquilo em que acreditamos. Trata-se de reconhecer limites. Há diferença entre argumentar e constranger, entre debater e agredir, entre convidar alguém à reflexão e exigir submissão. A liberdade de expressão não é licença para violentar o outro, assim como o respeito não exige que renunciemos às nossas convicções.
Quando as urnas fecharem, as relações continuarão existindo. O resultado eleitoral terá data, mas as palavras cruéis podem deixar marcas por muito mais tempo. Por isso, talvez a pergunta mais importante deste segundo turno não seja apenas quem vencerá, mas quem estamos nos tornando durante essa disputa.
Sátina Pimenta é psicóloga clínica, advogada e professora universitária
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