A sinfonia de Fabio Lahass
Artigo narra a trajetória do maestro capixaba na Áustria e aponta quatro “movimentos” que transformam falta em desejo e conquista em reinvenção
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
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Sinfonia é composição musical de longa duração escrita para orquestras, geralmente dividida em quatro partes, ou “movimentos”. Com sua extraordinária vida, que ainda contabiliza apenas 28 anos, o maestro capixaba Fabio Lahass compôs uma sinfonia existencial que merece nossa audiência.
A sua trajetória, ainda que tão incipiente, enseja atenção não só pelo que seus movimentos têm de expressividade, mas também pelo convite que pode ser à escritura de uma existência autoral e com sentido – algo cada vez mais raro.
Lahass vive na Áustria, para onde foi estudar. De Santa Maria de Jetibá e suas lavouras, partiu para inventar, em Viena, uma vida apenas sonhada.
Daqui até lá, do ontem até o hoje, é que sua trajetória escreve uma sinfonia em quatro movimentos dignos de nota, transformando falta em desejo, conquista em reinvenção.
O primeiro movimento é ousar sonhar. O pequeno Fabio encontrou a música a partir do sonho de ser pastor. Como disse a este jornal, sem recursos para comprar um piano, desenhava as teclas em folhas de papel, “imaginando o instrumento”. “Foi desse jeito que tudo começou.”
Os sonhos são sonhos porque muitas vezes não cabem na realidade, mas se sustentados por otimismo e determinação podem mesmo transformar a realidade em que não tinham cabimento.
O segundo movimento é compartilhar o sonho. Raul Seixas escreveu: “Sonho que se sonha só/ É só um sonho que se sonha só/ Mas sonho que se sonha junto é realidade”.
Se “Prelúdio” chegou aos ouvidos do jovem de Alto Santa Maria, não posso assegurar, mas Lahass inspirou muitos, mobilizando um significativo bem-querer harmônico em torno de seu sonho.
Mas sonho não é estratégia. E aqui que entra o terceiro movimento: firmar propósito. Fabio Lahass soube sonhar um destino, mas também soube que era fundamental desenhar um caminho até ele, numa composição de esperança e disciplina, dedicação e persistência, resiliência e encantamento.
Ser grato é o movimento final desta sinfonia. Ao responder ao repórter Will Anholetti sobre o significado de voltar à terra natal em turnê gratuita, é assertivo: “Gratidão. Eu só consegui estudar na Áustria porque muitas pessoas me ajudaram”.
Quem agradece reconhece o valor do semelhante, reforçando o tão esgarçado quanto fundamental laço humanístico em tempos tão hostis ao outro, além de, nesse processo, inventariar conquistas que podem mesmo passar despercebidas.
Também não sei se o maestro leu José Comblin, mas deixo suas palavras, que dialogam perfeitamente com sua sinfonia existencial:
“Na origem de todas as grandes obras, houve uma fermentação de sonhos, projetos e aspirações. Houve uma dedicação apaixonada àquilo que não existia para que chegasse a existir. Houve uma intuição de possibilidades inéditas e um lançar-se furiosamente para o futuro. Não basta ter grandes desejos para realizá-los. Mas ninguém realiza grandes obras sem ter tido grandes desejos.”
Como sempre digo, tudo na vida é um convite. Com seu olhar sorridente, Fabio Lahass convida a vida a lhe sorrir. E ela retribui. Ninguém é exemplo. Mas alguns podem ser inspiração.
JOSÉ ANTONIO MARTINUZZO é pós-doutor em Psicanálise (UERJ), doutor em Comunicação (UFF) e professor titular da Ufes
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