A revolução energética reindustrializa o País
Coluna é publicada no jornal A Tribuna
Evandro Milet
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O Brasil vive uma verdadeira revolução energética no campo, impulsionada por um boom de fábricas de biocombustíveis. Esse movimento contrasta fortemente com a histórica tendência de desindustrialização em que a manufatura tradicional perdeu espaço no PIB.
Agora, surge uma “neoindustrialização” focada na bioeconomia e no processamento local de commodities agrícolas, agregando valor à produção. O grande motor dessa transformação tem sido o etanol de milho, que deixou de ser uma alternativa marginal. O País viu a produção de etanol de milho saltar de 140 milhões de litros, na safra 2017/2018, para uma projeção que supera os 8 bilhões de litros atuais, representando cerca de 25% de todo o etanol consumido nacionalmente.
A grande vantagem competitiva reside no fato do milho ser cultivado majoritariamente como safrinha, plantada imediatamente após a colheita da soja, aproveitando a mesma terra e gerando uma eficiência de uso do solo incomparável no mundo. O avanço permite diversificar as matérias-primas, iniciando projetos voltados para o etanol de trigo no sul do País, aproveitando as culturas de inverno.
O milho e a cana emergem como bases também para a produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF), atendendo à Lei do Combustível do Futuro, que prevê uma mistura gradual de SAF de 1%, em 2027, até 10%, em 2037. No transporte marítimo, o desenvolvimento de bunker verde para navios utilizando etanol como base também abre um novo mercado.
Paralelamente, o biodiesel continua sua trajetória de consolidação, estimulado pelo aumento gradual da mistura obrigatória ao óleo diesel fóssil em direção à meta de 15% (B15). Esse crescimento ocorre em sinergia com o biometano gerado a partir do gás de aterros sanitários e resíduos agroindustriais, cujo potencial nacional estimado passa de 100 milhões de metros cúbicos por dia, substituindo o gás fóssil na indústria pesada.
No topo dessa pirâmide tecnológica estão as possibilidades do hidrogênio verde (H2V), impulsionadas pela abundante e barata energia eólica e solar do País, projetando aportes que superam os US$ 30 bilhões em hubs portuários e consolidando o etanol também como um carregador natural para a extração descentralizada desse hidrogênio.
Toda essa explosão de investimentos industriais gera oportunidades massivas em toda a cadeia produtiva nacional. O processamento dos grãos gera coprodutos como o DDG (grãos destilados secos), usado na nutrição animal, e a energia térmica necessária para as fábricas vem da queima de biomassa.
A construção dessas usinas injeta bilhões de reais no mercado de equipamentos industriais, como turbinas, destiladores, caldeiras de biomassa e tanques, movimentando a metalurgia nacional. Há uma demanda gigantesca por empresas de engenharia, de automação e de montagem mecânica.
No canteiro de obras, o setor impulsiona o mercado de linha amarela de máquinas (como escavadeiras, pás carregadeiras e retroescavadeiras), essenciais tanto na terraplenagem quanto na logística interna de transporte de biomassa e grãos.
Somam-se a isso oportunidades cruciais no setor de transportes pesados, na indústria de caminhões a biometano, em laboratórios de biotecnologia e em créditos de carbono.
O Brasil prova que seu futuro econômico não precisa escolher entre ser o celeiro do mundo ou uma potência industrial, mostrando que é possível fundir ambos os conceitos, tudo em alta tecnologia.
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