Formação de professores no Brasil enfrenta desafios apesar de avanços
Levantamento aponta que 84,3% dos professores têm formação adequada, mas apenas 25% dos docentes da EJA atendem a esse critério.
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A formação de professores ocupa posição estratégica no desenvolvimento educacional, social e econômico de qualquer país. No Brasil, o debate sobre a qualidade da educação evidencia uma realidade incontornável: nenhuma política educacional produzirá resultados consistentes sem profissionais adequadamente preparados.
Em um cenário marcado por transformações tecnológicas aceleradas, novas demandas educacionais e crescente diversidade dos estudantes, refletir sobre a formação docente torna-se indispensável.
Avanços na formação docente nas últimas décadas
Nas últimas décadas, o país registrou avanços importantes. Dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026 mostram que o percentual de professores da Educação Básica com formação adequada passou de 71,9%, em 2015, para 84,3%, em 2025, enquanto a proporção de docentes sem formação superior foi reduzida de 23,6% para 12,3%.
Os resultados evidenciam os efeitos positivos das políticas de ampliação do acesso à educação superior e indicam avanços na qualificação docente. Entretanto, persistem desafios relevantes, conforme aponta o Anuário.
Desigualdades entre as etapas da Educação Básica
A distribuição da formação adequada ainda apresenta desigualdades entre as etapas da Educação Básica. Em 2025, os percentuais de docentes com formação compatível com a área de atuação variaram conforme a etapa de ensino:
- Educação Infantil: 64%
- Anos iniciais do Ensino Fundamental: 74%
- Anos finais do Ensino Fundamental: 59%
- Ensino Médio: 66%
- Educação de Jovens e Adultos (EJA), anos iniciais: apenas 25%
Esses indicadores demonstram que a expansão do acesso à formação deve ser acompanhada pela garantia de qualidade e adequação às demandas dos diferentes contextos educativos.
Atratividade da carreira docente ainda é baixa
Outro aspecto crítico refere-se à atratividade da carreira docente. Em 2024, apenas 14,7% dos ingressantes em cursos de licenciatura pertenciam ao grupo dos 20% de estudantes com melhor desempenho no Enem.
O percentual é inferior ao observado em cursos como Direito (32,6%) e Medicina (81,2%), o que reforça a necessidade de ampliar políticas de valorização e desenvolvimento profissional.
Por outro lado, o Censo da Educação Superior de 2024 revela que a Pedagogia permaneceu como o curso de graduação com o maior número de matrículas do país, totalizando 887.695 estudantes. O resultado demonstra que o desafio não está apenas na procura pela profissão, mas em garantir formação de qualidade e favorecer trajetórias profissionais consistentes.
Resultados do Enade e da Prova Nacional Docente acendem alerta
Os resultados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) das Licenciaturas e da Prova Nacional Docente de 2025 reforçam essa preocupação. Apenas 20,2% dos concluintes avaliados alcançaram o nível considerado adequado de desempenho, enquanto 42,2% permaneceram abaixo do nível básico.
Os dados indicam que a ampliação de vagas, embora necessária, não é suficiente quando não vem acompanhada de processos formativos consistentes. Soma-se a essa preocupação a futura disponibilidade de professores em diversas áreas, diante do envelhecimento do quadro docente e das dificuldades de atração e permanência na profissão.
Desenvolvimento profissional contínuo exige atualização permanente
Outro desafio refere-se ao desenvolvimento profissional contínuo. As rápidas transformações sociais, culturais e tecnológicas exigem atualização permanente, capacidade reflexiva e condições institucionais favoráveis à construção de novos saberes profissionais ao longo da carreira.
As instituições de educação superior assumem, portanto, papel estratégico na construção de modelos formativos inovadores.
Inovação pedagógica: contribuições da pesquisa da FAESA
Pesquisas desenvolvidas no âmbito da FAESA evidenciam que a formação docente alcança maior consistência quando articula teoria e prática, promove o protagonismo estudantil e estimula a reflexão crítica sobre situações reais de aprendizagem.
Experiências fundamentadas na inovação metodológica e na resolução de problemas reais favorecem a autonomia profissional e ampliam a capacidade de análise e intervenção pedagógica dos educadores.
Ainda segundo estudos da instituição, a incorporação das tecnologias digitais e da inteligência artificial aos processos educacionais tem se tornado elemento estratégico para a inovação pedagógica, a personalização da aprendizagem e a qualificação das experiências formativas na educação superior.
Essas transformações exigem competências relacionadas ao uso ético das tecnologias, à avaliação crítica de conteúdos produzidos por inteligência artificial, à curadoria da informação e à mediação das aprendizagens em ambientes cada vez mais híbridos e digitais.
Perspectivas e desafios para o futuro da docência
As perspectivas para a formação de professores no Brasil mostram-se favoráveis à medida que o país amplia os níveis de escolarização docente e aprofunda o debate sobre a qualidade da formação e do exercício profissional.
Contudo, desafios relacionados à atratividade da carreira, à valorização docente, à qualidade da formação inicial e às oportunidades de desenvolvimento profissional contínuo permanecem centrais para o avanço da educação brasileira.
Assim, é possível afirmar que o principal desafio contemporâneo não consiste apenas em ampliar o acesso à formação docente, mas em assegurar que essa formação responda às exigências de uma sociedade complexa e em permanente transformação. A qualidade das aprendizagens, a efetividade das políticas educacionais e a preparação das novas gerações dependem, em grande medida, da qualificação e da valorização dos profissionais da educação.
Em última instância, a qualidade da educação brasileira não será superior à qualidade da formação oferecida aos seus professores. Por essa razão, discutir a docência significa discutir o próprio projeto de desenvolvimento do país.
Texto escrito pelo professor e assessor pedagógico Vitor Nunes Rosa e pela gestora do Núcleo Pedagógico da FAESA, professora Zilka Sulamita Teixeira Maia, sob a coordenação da professora Carla Letícia, pró-reitora da FAESA.
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