A Arte de Fazer Boas Perguntas
Cristiano Carvalho, diretor geral da escola Americana de Vitória e membro do comitê de Educação do ES em Ação
ES EM AÇÃO
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"Por que você é Flamengo e meu pai Botafogo? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme?" Esses versos de Oito Anos , de Paula Toller e Dunga, nos transportam para a mente curiosa de uma criança. Escrita em 1997, antes mesmo do Google se tornar parte do nosso cotidiano, a canção retrata o desafio de responder às infinitas perguntas da infância.
Hoje, porém, vivemos o extremo oposto: nunca tivemos tantas respostas disponíveis, tão rapidamente. Em um mundo em que buscadores, algoritmos e inteligência artificial respondem em segundos ao que antes planejado horas de pesquisa, uma pergunta se torna segura: se as respostas cada vez mais acessíveis, o que precisamos ensinar?
A criança é um cientista nato
A criança é um cientista nato. Observe, experimente, pergunte e se maravilha com o mundo. Assim como um dos princípios da ética médica é “primeiro, não causar dano”, talvez o equivalente na educação seja “primeiro, não matar a curiosidade” .
O risco é que a escola substitua a investigação pela memorização, as perguntas pelas respostas esperadas e a descoberta pela preparação para provas. Uma boa educação não é aquela que satisfaz a curiosidade, mas aquela em que cada descoberta desperta novas perguntas.
O mundo contemporâneo exige muito mais do que acumular informações
O mundo contemporâneo exige muito mais do que acumular informações. É preciso relacioná-las, contextualizá-las, confiar em incertezas e compreender problemas complexos.
Competências não substituem conhecimento. Pelo contrário, é justamente um repertório sólido que permite formular perguntas melhores, estabelecer conexões e desenvolver pensamento crítico.
Diante da inteligência artificial, o desafio não é competir com as máquinas na velocidade das respostas, mas desenvolver pessoas capazes de fazer boas perguntas e de analisar criticamente as respostas que recebem. Não por acaso, a UNESCO tem defendido o letramento em inteligência artificial como uma competência essencial para a cidadania digital.
Essa necessidade não termina na educação básica
Essa necessidade não termina na educação básica. O Fórum Econômico Mundial aponta entre as competências de maior crescimento em importância para os próximos anos:
- pensamento analítico;
- letramento tecnológico;
- inteligência artificial;
- nove;
- aprendizagem ao longo da vida.
Quanto mais a tecnologia avança, menos sentido faz preparar estudantes apenas para executar tarefas que máquinas também realizam. A educação precisa cultivar pessoas capazes de interpretar, decidir, criar, colaborar e continuar aprendendo.
Canteiro onde nascem perguntas
Rubem Alves dizia que:
"Cabeça de criança não é gaveta onde se guardam informações. É canteiro onde nascem perguntas."
Talvez um dos maiores desafios da escola seja justamente não permitir que esse canteiro deixe de florescer. Uma curiosidade que leva uma criança a perguntar sobre tudo precisa ser preservada e, ao longo da escolaridade, transformada em uma capacidade cada vez mais sofisticada de investigar, relacionar, duvidar e construir conhecimento.
Porque, em um mundo no qual as respostas estão cada vez mais disponíveis, continuar aprendendo dependerá, sobretudo, da nossa capacidade de continuar fazendo perguntas. Afinal: por que você é Flamengo e meu pai Botafogo? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme?
Cristiano Carvalho , diretor geral da escola Americana de Vitória e membro do comitê de Educação do ES em Ação.
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