Pipoca gourmet ajuda a realizar sonhos de menino de 13 anos
Josué vende pipocas para ajudar nas despesas da família; especialista explica como o empreendedorismo pode ensinar crianças a lidar com dinheiro
O que começou como um lanche levado para a escola virou um negócio capaz de ajudar a realizar sonhos. Aos 13 anos, Josué Nogueira Moncalvo enxergou nas pipocas que preparava uma oportunidade de empreender.
Os amigos do adolescente também gostavam de sua pipoca tradicional e pediam pelo lanche. Aos poucos, ela foi ganhando ingredientes como leite condensado, leite em pó e queijo ralado.
O que era um negócio ainda tímido tomou mais força com a lista de material escolar, do início do ano, que chegava perto dos R$ 3 mil. Ao perceber o peso da despesa para a família, Josué decidiu ajudar o pai a pagar a conta.
Ele, então, decidiu se aperfeiçoar, com vídeos na internet. Foram vários testes e técnicas com caramelo até Josué chegar na pipoca que sua mãe, a educadora religiosa Luciana Moncalvo, de 51 anos, considerada como “a perfeição”.
“No início errei bastante para fazer o caramelo, gastei dinheiro, mas cheguei no ponto certo. Na hora de fazer a pipoca, minha mãe sempre fica ao meu lado, além de me ajudar a vender”, relatou Josué.
Depois de aperfeiçoar a receita, Josué passou a preparar versões com chocolate branco, chocolate ao leite e Ovomaltine.
Quando percebeu que vender apenas para os colegas da própria sala não seria suficiente para alcançar o objetivo, Josué buscou outros clientes.
Com o apoio da mãe, começou a oferecer as pipocas na região onde mora, em Coqueiral, Vila Velha, além de vender para conhecidos da igreja e na praça do bairro.
“Ele conseguiu ajudar o pai a pagar o material escolar e disse que queria uma bicicleta elétrica para economizar com a passagem e ir para a escola com a irmã. E todo mês paga as parcelas. Agora ele está juntando dinheiro para comprar um computador e um celular”, contou Luciana.
Segundo a mãe, Josué já se ofereceu para comprar o gás e também já a presenteou com um sofá. “Ele sempre quer abençoar”.
Mas existe uma condição para que o negócio continue, de acordo com a mãe: os estudos, o taekwondo e a convivência com os amigos precisam permanecer em primeiro lugar.
“Só deixo ele fazer as pipocas porque ele tira notas boas. Se em algum momento atrapalhar a vida escolar e a convivência com os amigos, eu não deixarei mais ele fazer, porque criança tem de ser criança”.
Receita de pudim
Uma receita de pudim do engenheiro Felipe Labanca, 43, resultou em uma sociedade com sua filha Clara Van Der Kuip Labanca, de 9 anos.
“Essa receita sempre foi muito elogiada e a Clara sempre ajudou a fazer. Eles decidiram transformar isso em um negócio (Pudim da Clarinha) por demanda, semanal”, contou a mãe de Clara, a engenheira Bianca Van Der Kuip, 48.
“Para além da diversão e passatempo em família, ensinamos para ela noções de empreendedorismo, como receita, despesa e lucro. E todo lucro é revertido para algo que ela goste”, explicou Bianca.
Educação financeira na infância
Há um momento certo em que se deve começar a falar sobre dinheiro com as crianças?
Segundo a assessora de Desenvolvimento e Cooperativismo do Sicredi, Thais Souza, a educação financeira pode começar desde a infância, de forma adequada à idade e ao contexto da criança.
“Muito antes de lidar com valores ou cálculos complexos, ela já pode aprender conceitos como escolha, troca, espera, planejamento e responsabilidade”.
O empreendedorismo, de acordo com ela, pode tornar esse aprendizado mais concreto.
“Ao criar, produzir ou participar de um projeto coletivo, a criança compreende que recursos são limitados, que decisões têm consequências e que esforço, criatividade e planejamento geram resultados”, explica.
Nas Cooperativas Escolares – projeto da Sicredi Serrana, em curso em algumas instituições, como em oito escolas municipais de Viana – estudantes são desafiados a criar e desenvolver uma cooperativa escolar e aprendem esses conceitos de forma coletiva, exercitando também responsabilidade compartilhada, gestão democrática e trabalho em equipe, segundo Thais.
Por isso, aponta a especialista, apesar dos benefícios, incentivar o empreendedorismo na infância exige cuidado.
“Quando o foco está no aprendizado, na experimentação e no desenvolvimento de competências, a experiência tende a contribuir para formar adultos mais conscientes sobre planejamento, consumo, riscos e tomada de decisões financeiras”, observa.
Como ensinar a criança a lidar com dinheiro
Quando começar?
A educação financeira pode começar ainda na infância, com ensinamentos adequados à idade. Antes mesmo de aprender a fazer contas, a criança pode compreender conceitos como escolha, planejamento, espera e responsabilidade.
O empreendedorismo ajuda a tornar esse aprendizado prático, desde que seja uma experiência educativa, sem cobrança por resultados.
A principal lição é que educação financeira não se aprende apenas falando sobre dinheiro, mas vivenciando escolhas e refletindo sobre elas.
O que ela aprende ?
Ao criar e vender um produto, a criança pode aprender a calcular os custos de produção, definir preços, entender o lucro e perceber a importância de poupar.
Também desenvolve habilidades como planejamento, tomada de decisões e organização. Em iniciativas coletivas, aprende ainda sobre cooperação, trabalho em equipe e responsabilidade compartilhada.
Empreender na infância pode gerar pressão?
Depende de como a atividade é conduzida. Quando o objetivo é aprender, experimentar e desenvolver habilidades, a experiência pode ajudar a construir uma relação mais consciente com o dinheiro.
Já a cobrança por ganhos, a comparação com outras crianças e a busca por resultados podem gerar ansiedade. O aprendizado deve ser mais importante do que o lucro.
Como os pais podem ajudar?
- Conversar sobre dinheiro de forma adequada à idade.
- Envolver a criança em pequenas decisões de consumo da família.
- Ensinar a diferença entre necessidades e desejos.
- Incentivar metas e mostrar como planejar para alcançá-las.
- Explicar a importância de poupar para objetivos futuros.
- Dar o exemplo com hábitos financeiros saudáveis.
- Valorizar o planejamento, a responsabilidade e a cooperação, não apenas a economia.
Fonte: Assessora de Desenvolvimento e Cooperativismo do Sicredi, Thais Souza.
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