“Pílula do ronco” é arma contra apneia do sono
O medicamento AD109, ainda em fase de desenvolvimento nos Estados Unidos, é o primeiro via oral para tratar o problema
Ronco, pausas respiratórias frequentes durante o sono, cansaço excessivo mesmo após uma aparente boa noite de descanso. Esses podem ser alguns dos indícios de uma apneia obstrutiva do sono (AOS).
E uma pílula pode ser a solução para isso. A AD109 ou “pílula do ronco”, primeiro medicamento oral para tratar a AOS, está em fase de desenvolvimento nos EUA.
Segundo Jessica Polese, pneumologista e médica do sono, o medicamento é uma combinação dos compostos atomexitina, que é usado no tratamento do TDAH, e a oxibutinina.
O remédio será usado para tratar especificamente a apneia obstrutiva do sono. “Trata-se de uma flacidez da musculatura e das estruturas da orofaringe que faz com que a via aérea feche. Esse fechamento faz com que o ar não chegue ao pulmão”, esclareceu a médica.
O comprimido ainda está em fase de estudos e apresenta resultados consideráveis: pacientes submetidos ao tratamento tiveram uma redução de 44% no chamado índice de apneia-hipopneia.
Porém, a pesquisa não identificou melhora estatisticamente significativa nos níveis de fadiga nem ganhos na qualidade de vida.
Apesar de parecer uma condição comum, a apneia é tida como uma doença grave, conforme explicou a otorrinolaringologista e médica do sono Zuleika Barbosa.
“Essa queda da oxigenação durante o sono de forma intermitente causa risco cardiovascular, faz aumentar a pressão arterial, aumenta risco de arritmia, aumenta risco de AVC, de insuficiência cardíaca, de resistência insulínica, então de diabetes também. Quando a gente fala do ronco, é só a ponta do iceberg”, explica.
Conforme explica a pneumologista e médica do sono Simone Prezotti, o tratamento padrão-ouro continua sendo o CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas), um aparelho que mantém a garganta aberta por meio de um fluxo de ar constante através de uma máscara.
ENTENDAApneia do sono
A apneia obstrutiva do sono (AOS) é uma doença respiratória que ocorre durante o sono, na qual a via aérea superior (a garganta) fecha-se repetidamente, interrompendo a passagem do ar.
Sintomas
Não é apenas ronco: A apneia é fator de risco reconhecido para hipertensão arterial, arritmias, doença cardiovascular, AVC e diabetes tipo 2. Pressão alta de difícil controle, refluxo noturno e necessidade de urinar várias vezes à noite também podem estar associados, explica a médica Simone Prezotti.
Gravidade
As pausas na respiração são normais, e acontecem durante o sono. O que é problema é quando isso ocorre de forma repetida, mais que cinco vezes por hora de sono.
Tratamento hoje
O tratamento é sempre individualizado e depende da gravidade, da anatomia e das preferências do paciente.
O tratamento padrão-ouro continua sendo o CPAP. Outras opções, a depender dos casos, são aparelhos intraorais (avançam a mandíbula e ampliam o espaço da via aérea), tratamentos miofuncionais (com fonoaudiólogos), cirurgias otorrinolaringológicas ou maxilofaciais em situações específicas, além de perda de peso quando há excesso de peso associado.
Nova medicação
A pílula do ronco está em fase de desenvolvimento nos Estados Unidos. Estudo acompanhou 646 pacientes com apneia de diferentes níveis – de leve a grave – ao longo de 26 semanas. Nenhum deles fazia uso do CPAP.
Os voluntários foram divididos em um grupo que fez uso do AD109 (que já tem registro provisório para futuramente usar o nome comercial Oxnimbi, se for aprovado) e outro que utilizou um placebo pacientes submetidos ao tratamento tiveram uma redução de 44% no chamado índice de apneia-hipopneia.
Um em cada cinco participantes abandonou o tratamento devido aos efeitos colaterais, que incluíam boca seca, insônia, náusea e hesitação urinária.
Fonte: Especialistas entrevistados.
Qualidade de vida
O aposentado Daniel Barroso, de 76 anos, tem apneia do sono e utiliza o CPAP há aproximadamente um mês. Ele iniciou o tratamento após perceber a melhora da qualidade de sono da esposa, que também tem apneia. “Eu tinha um sono agitado, dormia pouco e incomodava os outros”, relatou.
Já no primeiro uso do aparelho percebeu a melhora. “Na primeira noite eu dormi por 8 horas. Antes, dormia quatro ou cinco horas”.
Para além da quantidade de horas de sono, Daniel teve uma melhora na qualidade de vida.
“Eu ficava cansado durante o dia, sentava numa cadeira e logo dormia. Agora isso acabou”, relata.
“Eu não compraria o remédio. O custo-benefício do CPAP é muito melhor. Ele é para toda a vida”, destacou.
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