Mais de 60% das pessoas sentem culpa por descansar
Levantamento de A Tribuna e EJUVV revela culpa ao descansar, pouco tempo livre e troca de sono por lazer, com impactos na saúde mental
Mais de 60% dos participantes da pesquisa de A Tribuna em parceria com a EJUVV disseram que se sentem culpados pelo menos uma vez em que decidem tirar um tempo para descansar.
O psicólogo Lucas Protti explica que isso é resultado de uma cultura que associa estar sempre ocupado a ser produtivo ou bem-sucedido.
“Estar ocupado virou quase uma forma de mostrar que a vida está dando certo. Aí a pessoa trabalha para ter uma vida melhor, mas precisa trabalhar cada vez mais para provar que está aproveitando bem essa vida”.
Pode haver ainda uma dificuldade de sustentar um prazer que não precise ser justificado, segundo Lucas.
“Se faço exercício porque preciso render mais ou durmo porque preciso produzir melhor, o descanso vira investimento. É importante recuperar a possibilidade de fazer algo simplesmente porque aquilo dá prazer”.
A dificuldade de desacelerar também aparece em outro resultado do levantamento: 39,57% dos entrevistados afirmam que só conseguem fazer algo por lazer nos fins de semana. Além disso, 57,75% têm no máximo duas horas livres por dia.
A psiquiatra, médica do trabalho e vice-presidente da Associação Médica do Espírito Santo (AMES), Letícia Mameri Trés, diz que uma rotina com pouco ou nenhum tempo para descanso pode causar impactos sérios.
“A curto prazo, pode causar irritabilidade, cansaço, ansiedade, dificuldade de concentração e alterações do sono. A longo prazo, aumenta o risco de esgotamento, burnout e sintomas ansiosos e depressivos”.
Por isso, é importante se manter atento aos sinais. “Cansaço persistente, irritabilidade, dificuldade de relaxar, alterações do sono e queda de concentração podem indicar que a falta de tempo livre está impactando a saúde mental”.
Até porque, ter tempo livre não significa, necessariamente, descansar, como explica a psicóloga Clislaine Oliveira.
“Se a pessoa passou o dia sob forte pressão, o sistema nervoso simpático continua hiperativado, mantendo a mente em estado de hipervigilância. É por isso que o corpo para, mas os pensamentos continuam orbitando as obrigações pendentes”.
E existem saídas mesmo para quem tem uma rotina corrida.
“Nesse caso, o melhor a ser feito é reestruturar a rotina diária para incluir micropausas de 5 a 10 minutos ao longo do expediente”, diz Clislaine.
Trocar sono por lazer é prejudicial
Depois de um dia cheio de obrigações, muitos chegam em casa já no horário de dormir. Mas, em vez de ir para a cama, decidem assistir a mais um episódio da série, navegar pelas redes sociais ou simplesmente aproveitar algumas horas para si.
Esse comportamento tem se tornado uma tendência na tentativa de recuperar o tempo livre que faltou durante o dia. Porém, segundo especialistas, a procrastinação da hora de dormir pode ser prejudicial à saúde.
Para a psicóloga Clislaine Oliveira, esse comportamento revela uma rotina sufocante.
“Sacrificar o sono é uma tentativa desesperada do cérebro de recuperar a autonomia, porque a pessoa sente que perdeu totalmente o controle sobre sua vida”.
A psiquiatra, médica do trabalho e vice-presidente da Associação Médica do Espírito Santo (AMES), Letícia Mameri Trés adiciona que isso é compreensível, mas traz poucos benefícios.
“Isso pode se tornar prejudicial quando a pessoa troca muitas horas de sono. O ideal é preservar esse momento pessoal, mas tentar antecipá-lo, sem sacrificar o momento de dormir, porque o corpo cobra no dia seguinte”.
Na avaliação do psicólogo Lucas Protti, para além de uma falta de organização, há um tipo de vingança contra o próprio dia.
“A pessoa passa horas trabalhando, resolvendo coisas e atendendo demanda. Quando chega à noite e ninguém mais está pedindo nada, pensa: 'agora é meu tempo'”.
Mas isso também não quer dizer que a atividade cause algum prazer.
“Às vezes é porque esse é o único momento em que a pessoa sente que a vida pertence a ela”.
E a solução, segundo ele, não é apenas determinar que se deve dormir cedo para descansar.
“Se a pessoa só consegue ter um tempo para si quando todas as obrigações acabam, talvez seja preciso mexer na própria rotina”.
Desconectar ajuda a relaxar
Apesar do tempo livre ser um desejo de todos, nem sempre esses momentos são bem aproveitados pelas pessoas, segundo especialistas.
Usar esse momento somente para ficar conectado a telas, por exemplo, pode ser muito prejudicial, de acordo com a psicóloga Clislaine Oliveira.
“Redes sociais, séries e notificações geram picos contínuos de dopamina barata, mantendo o cérebro estimulado e cansado, o que chamamos de cansaço mental passivo”.
Porém, na visão do psicólogo Lucas Protti, não se trata apenas de “demonizar” o celular, as redes sociais ou as séries.
“Às vezes uma série pode ser exatamente o que alguém precisa depois de um dia cansativo”.
Segundo ele, o risco surge quando a pessoa passa a sentir necessidade de preencher qualquer espaço vazio.
“Se você entra no elevador e pega o celular; espera cinco minutos e pega o celular de novo, talvez o aparelho não esteja mais preenchendo o tempo livre, mas impedindo de perceber que ele existe”, adiciona Lucas.
Por isso, para descansar de verdade, a psiquiatra, médica do trabalho e vice-presidente da Associação Médica do Espírito Santo (AMES), Letícia Mameri Trés, recomenda priorizar outros tipos de atividades.
“O tempo livre de qualidade é aquele que proporciona prazer, autonomia e desligamento das obrigações. Pode envolver hobbies, atividade física, contato social, natureza ou simplesmente não fazer nada”.
Agenda flexível
Depois de ser demitida durante a pandemia de covid-19, Luanna Santos Corrêa, 24 anos, decidiu começar a empreender.
Ela conta que já fazia trabalhos como trancista e cabeleireira e resolveu investir nisso, criando a Lady Blac, em Vila Velha.
A jovem, que também é atleta de fisiculturismo, diz que consegue fazer muito mais coisas por conseguir montar seu horário.
“Gosto de ter uma agenda flexível. Sinto que hoje, nesse modelo, vivo muito melhor”.
Tempo livre de qualidade
1. Faça pausas
Pequenos intervalos ao longo do dia ajudam a interromper períodos prolongados de exigência e tensão.
2. Proteja o horário das refeições
Evite transformar almoço e outros intervalos em uma extensão do expediente.
4. Estabeleça limites
Quando possível, limite mensagens, ligações e outras demandas profissionais fora do horário de trabalho.
5. Tenha momentos de lazer
Reserve espaço na rotina para atividades como hobbies, exercícios, leitura e convívio social
6. Diminua os estímulos
O excesso de redes sociais e notificações pode manter a mente estimulada mesmo durante o tempo livre.
7. Não transforme tudo em produtividade
Nem toda atividade precisa trazer algum resultado. Fazer algo só por prazer também é importante.
8. Não sacrifique o sono
Evite adiar a hora de dormir para compensar a falta de lazer no dia.
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