Fim da ladeira e da baliza em prova de direção é criticada por especialistas
Sindicato alerta para riscos de motoristas mal preparados. Detran confirma que manobras deixaram de ser obrigatórias
O fim da exigência das provas de ladeira e baliza na primeira habilitação foi criticado por especialistas em trânsito ouvidos pela reportagem de A Tribuna. Para eles, essas manobras são essenciais para a formação de um bom motorista, pois avaliam habilidades básicas e indispensáveis para a condução segura no dia a dia.
O Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran-ES) esclareceu que, no âmbito estadual, desde o retorno das provas práticas de direção veicular, no último dia 19, o órgão já retirou a exigência das etapas de baliza e ladeira. As manobras estavam previstas na resolução nº 789/2020 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que foi revogada pela resolução nº 1.020/2025.
Para o presidente do Sindicato das Autoescolas do Espírito Santo, Gabriel Couzi, a baliza e a ladeira avaliam competências fundamentais, como controle do veículo, coordenação motora, noção espacial e domínio da condução em baixa velocidade. “A retirada desses testes pode formar motoristas menos preparados para situações comuns do dia a dia, aumentando o risco de acidentes e vítimas no trânsito”.
Segundo ele, o impacto é ainda maior para quem dirige veículos com câmbio manual, especialmente na ladeira, que exige controle simultâneo de embreagem, freio e aceleração. “Sem essa avaliação, o condutor pode enfrentar dificuldades reais logo após a habilitação”.
Quem também demonstra preocupação é o especialista em trânsito Josimar Amaral. Para ele, a ladeira e a baliza sempre tiveram papel central no processo de formação. “Essas duas etapas são essenciais porque avaliam habilidades fundamentais para quem vai dirigir no dia a dia”, afirma.
Josimar pondera que, durante a prova, o fator emocional interfere no desempenho dos candidatos, fazendo dessas manobras causas frequentes de reprovação. No entanto, fora do ambiente de avaliação, são justamente essas habilidades que garantem segurança e fluidez no trânsito.
“O controle do veículo em ladeira e a capacidade de estacionar corretamente entre outros carros são competências básicas. O que percebo com a nova metodologia é que ela pode permitir a aprovação mesmo sem a realização dessas manobras, com o candidato perdendo pontos e, ainda assim, obtendo a habilitação”.
O que eles dizem
Retrocesso
“Considero essa nova regra um retrocesso do ponto de vista da segurança e educação no trânsito. Facilitar o processo de habilitação não pode significar reduzir critérios de avaliação. A Carteira Nacional de Habilitação não é apenas um documento, é uma responsabilidade social. Menos exigência na formação pode resultar em mais acidentes e vítimas. É lamentável!”
Comprometer formação
“Na minha avaliação, o fim dessas exigências pode comprometer a formação do condutor. Dependendo de onde ele vai circular, essa flexibilização pode dificultar a sua inclusão no trânsito com as habilidades necessárias para dirigir com segurança, especialmente no caso dos veículos com câmbio manual, que exigem controle de embreagem e coordenação. Menos exigência na avaliação tende a resultar em motoristas menos preparados para enfrentar as situações reais do trânsito”.
Fragilizar o exame
“Simplificar e modernizar o caminho do candidato, permitindo que ele se prepare tanto na autoescola quanto em outra entidade certificada, é bem-vindo. Mas fragilizar o exame para facilitar a aprovação é uma combinação perigosa, com potencial para aumentar as mortes no trânsito. O exame atual já não reflete todo o preparo necessário para que o novo condutor esteja qualificado para enfrentar a 'guerra do trânsito'”.
Precisa cumprir
“É importante esclarecer que o Detran é um órgão executivo de trânsito estadual e, por isso, precisa cumprir o que é determinado pelo órgão normativo nacional, que é o Contran. Em dezembro, o Contran publicou a Resolução nº 1.020, que revogou resoluções anteriores, como a nº 789/2020, na qual estavam previstas a prova de baliza e a prova de ladeira. A nova resolução não trouxe mais essas exigências e, além disso, deixou claro que os Detrans não podem criar regulamentações complementares”.
Saiba Mais
Fim da exigência
A baliza não será mais obrigatória durante o exame prático em alguns estados brasileiros. O fim da prova já foi confirmado em, pelo menos, cinco estados: Espírito Santo, Amazonas, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
No Espírito Santo, a prova de ladeira também não é mais exigida.
Antes, o candidato precisava executar uma baliza — estacionar entre dois carros —, bem como fazer uma parada e saída em aclive. A baliza, inclusive, era um teste isolado e eliminatório.
No Espírito Santo, segundo o Detran-ES, desde que as provas práticas de direção veicular começaram, no dia 19, o órgão já retirou a exigência das etapas de baliza e ladeira, que atendiam à resolução 789/2020 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), revogada pela resolução nº 1.020/2025.
O Detran-ES acrescentou ainda que, conforme a resolução em vigor, as condições, critérios e parâmetros técnicos para a realização dos exames de direção veicular serão definidos pelo órgão máximo executivo de trânsito da União por meio do Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular, que ainda não foi publicado.
Agora, só há previsão de que o candidato seja penalizado na prova no que se refere às infrações previstas no Código de Trânsito Brasileiro, como transitar em calçada, não usar cinto de segurança ou avançar o sinal vermelho, explicou o diretor de Habilitação e Veículos do Detran-ES, Raphael Piekarz.
Limite de pontos
Outra mudança que já está em vigor é o aumento do limite de pontos que podem ser atingidos durante o exame prático.
Com a nova resolução, o candidato agora pode perder até 10 pontos. A classificação dos erros passa a ser alinhada com as infrações previstas no Código de Trânsito Brasileiro: infração leve (1 ponto), média (2), grave (4) e gravíssima (6 pontos).
Carro automático
Passa a ser autorizado o uso de carros automáticos na prova. Antes, o exame era tradicionalmente feito em veículos com câmbio manual, o que exigia maior treinamento e, muitas vezes, mais aulas práticas.
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