Bikes elétricas: acidentes deixam mais dois mortos e 16 feridos graves
Números se referem aos meses de agosto e setembro; ao todo, 623 incidentes com esses veículos foram registrados este ano
O avanço das bicicletas elétricas nas ruas do Espírito Santo também tem sido acompanhado pelo aumento dos acidentes e da gravidade das ocorrências. Somente nos meses de agosto e setembro, duas pessoas morreram e outras 16 sofreram lesões graves em acidentes envolvendo esses veículos.
De acordo com dados do Observatório da Segurança Pública, 623 acidentes com bicicletas elétricas foram registrados no Estado neste ano. O número já ultrapassa o dobro do ano passado todo, quando foram 303 acidentes.
Desde 2023, já são 11 mortes relacionadas a esse tipo de ocorrência. O cenário pode ser ainda mais preocupante, segundo o gerente de Fiscalização no Trânsito do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-ES), Jederson Lobato.
Ele afirma que há uma subnotificação significativa, já que parte dos envolvidos não registra a ocorrência ou procura atendimento por conta própria.
Diante do aumento das ocorrências, ações de fiscalização e orientação já estão sendo preparadas para acontecer até o final do mês.
Segundo Lobato, o Detran-ES, o Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) e a Guarda Municipal de Vila Velha devem realizar ações integradas com o uso, inclusive, de radares para averiguar a velocidade das bicicletas elétricas. “É uma ação com foco mais educativo e de orientação”, explicou Lobato.
Ele ressaltou, porém, que situações de irregularidade poderão resultar nas medidas previstas na legislação, como o caso de ciclomotores – motos elétricas.
“Nesse caso, os veículos podem ser recolhidos caso não estejam licenciados e emplacados. Os condutores também devem ter carteira de habilitação e devem estar com equipamentos de segurança, como o capacete”.
Já com relação às bicicletas elétricas, ele explicou que o Estado ainda trabalha na definição dos protocolos específicos para fiscalização dos veículos adulterados.
Lobato reforçou que a intenção não é impedir o uso das bicicletas elétricas, mas estimular uma utilização mais segura.
“Nós acreditamos na importância desse modal, que chegou para ficar. A expansão da micromobilidade precisa ser acompanhada de prudência e responsabilidade por parte dos usuários”.
Gravidade preocupa médicos
O aumento do número de acidentes com bicicletas elétricas também tem preocupado médicos. Eles revelam que as lesões são, geralmente, mais graves que as provocadas por bicicletas convencionais.
O ortopedista Bernardo Terra, especialista em ombro e cotovelo, explicou que, como as bikes elétricas conseguem atingir velocidades maiores que as convencionais, o impacto pode envolver mais energia e, consequentemente, produzir lesões mais graves.
Ele enfatizou a importância dos equipamentos de proteção. “Capacete é o equipamento mais importante, porque pode reduzir a gravidade de um traumatismo craniano. Luvas e proteções para joelhos e cotovelos também ajudam. Mas tão importante quanto o equipamento é respeitar a velocidade e as regras de circulação”.
O ortopedista e traumatologista, especialista em joelho, Fabrício Nascimento Almeida frisou que, além da velocidade superior, a bike elétrica tem peso maior. “Os acidentes têm sido de alta energia”.
Ele relatou que são observadas desde escoriações simples até trauma crânioencefálico, fraturas expostas e fraturas de fêmur em idosos atropelados. “Os idosos acabam sendo mais acometidos por atropelamento. Já adolescentes e adultos muita das vezes são pelas quedas em alta velocidade”.
Cirurgia no joelho e 60 dias de atestado
Após sofrer um acidente de bicicleta elétrica em agosto deste ano, o funcionário público Antônio Carlos Rodrigues, de 65 anos, precisou passar por uma cirurgia no joelho, recebendo ainda 60 dias de atestado.
Ao desviar de um outro motociclista que andava na contramão, ele se desequilibrou sozinho e caiu no meio fio, deslocando tanto o joelho quanto o ombro.
“Foi um susto muito grande. No movimento que fiz, o guidão da bicicleta rodou e eu acabei caindo e me machucando. Lembro que eu gritava muito de dor e as pessoas vieram me ajudar”.
A Tribuna: Depois da queda, você se lembra de algo?
Antônio Carlos Rodrigues: Lembro que eu sentia muita dor, chegava a gritar. Nisso, as pessoas foram se aproximando e me ajudaram a pedir socorro. Foi então que o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) me atendeu e me levou ao hospital.
Nisso você já foi logo para a cirurgia?
Não. Eu fiquei dois dias internado no hospital esperando o procedimento. Até porque, a minha pressão estava muito alta, acredito que pelo nervosismo, e os médicos queriam esperar para operar.
Como foi a cirurgia?
Foi tranquila. Eles acabaram operando apenas o meu joelho, porque eu não sentia dores no ombro ou dificuldade para levantar o braço.
Depois do procedimento, eles imobilizaram meu joelho com uma tala e eu recebi alta depois e um atestado de 60 dias em casa.
E a recuperação?
Está indo bem, mas não é nada fácil. No começo, para se ter uma ideia, eu tomava cerca de 12 comprimidos todos os dias. E também quase não conseguia andar, o que dificultava mais ainda. Hoje já estou bem melhor, se for comparar.
Teve dificuldades para fazer as coisas em casa?
Tive sim, demais. Até porque quando o acidente aconteceu, minha esposa estava em Portugal. Lembro que eu não queria ligar para ela para não preocupar, mas acabaram avisando do ocorrido.
Ela disse que ia voltar na mesma hora, mas eu não deixei. Nisso, liguei para a minha neta e ela ficava me ajudando de manhã. Mas à noite, eu precisava fazer tudo sozinho e era uma dificuldade.
Acabei precisando desenvolver algumas técnicas para ir me virando nesse tempo e, graças a Deus, deu tudo certo.
Chegou a ter apoio de outras pessoas?
Tive sim e me ajudou muito. Muita gente veio me visitar e se mostrou preocupada comigo, até pessoas que eu não imaginava.
Acho que isso foi o que não me deixou entrar em depressão, porque foi realmente muito difícil. As pessoas não me deixaram cair. Ligavam, vinham me ver. Isso foi muito bacana.
Você comentou que ainda está afastado do trabalho, certo? Como tem sido isso?
É ruim demais. Sempre gostei de trabalhar, então para mim tem sido muito ruim. Toda vez que tenho retorno no médico espero uma liberação para voltar. Espero que da próxima vez eu consiga, porque estou ansioso demais para esse momento.
Tem muito tempo que anda de bicicleta? Já tinha sofrido algum acidente?
Tem bastante tempo. Como eu moro perto do meu trabalho, não tenho problemas para me deslocar de bicicleta.
Usei por muitos anos a bicicleta comum, mas por conta da idade, esses tempos atrás, tive um problema de artrose. Como via muita gente falando das bicicletas elétricas, resolvi comprar uma também. Aí aconteceu isso.
Em todos esses anos, nunca tive nenhum problema, porque sou um ciclista cauteloso. Sempre respeitei o trânsito e as pessoas. Por isso essa situação me deixou muito triste, porque eu sempre tomo cuidado por saber dos riscos.
O senhor chegou a viver alguma outra situação de risco depois do acidente?
Sim. Teve um dia em que fui fazer uma consulta e estava de muletas. Enquanto estava na calçada, veio uma pessoa de bicicleta elétrica em alta velocidade, quase me acertou e ainda achou ruim comigo. Eu não fiz nada porque a gente fica até com medo da reação da pessoa, mas essa questão está muito complicada.
Tudo isso mudou a forma como você vê o trânsito?
Claro que sim. Acho que as pessoas estão abusando muito no trânsito, principalmente com essas bicicletas. Não respeitam as leis, nem as pessoas, e colocam todos em risco.
Acho que precisamos de mais leis para controlar essa questão, porque nem todos têm bom senso.
Guardas começam a usar bikes elétricas para rondas
As bicicletas elétricas também passaram a fazer parte das rondas da Guarda Civil Municipal de Vitória (GCMV) nas orlas da capital. Desde o dia 1º deste mês, agentes utilizam o equipamento para ampliar o patrulhamento.
O objetivo do projeto-piloto, chamado “E-bike Patrulhamento”, é alcançar áreas onde viaturas e motocicletas não conseguem chegar, como ciclovias e trechos de calçadas compartilhadas.
A comandante da GCMV, Fabiana Gonçalves, ressalta que, além de facilitar o deslocamento dos agentes, o novo equipamento permite ainda uma maior aproximação com a população.
“São novas áreas em que conseguimos patrulhar, regiões onde muitas pessoas estão caminhando e utilizando bicicletas. E isso tem chamado a atenção delas, que param os agentes para perguntar sobre o novo trabalho”.
O patrulhamento acontece das 6h às 18h e contempla pontos como a praia do Havaizinho, o acesso à Ilha do Boi e a Curva da Jurema, na Enseada do Suá; praia da Guarderia, Praça dos Desejos e Praça dos Namorados, na Praia do Canto; além de toda a extensão da orla de Camburi e da orla do Canal.
Aos sábados, os agentes também realizam rondas na orla da Ilha das Caieiras, em São Pedro.
O projeto usa bicicletas doadas pela Receita Federal e os guardas que realizam as rondas passaram por uma capacitação específica.
Atualmente, a GCMV conta com seis agentes divididos em dois turnos. “As pessoas param os agentes e pedem orientações sobre como usar as bicicletas corretamente”.
Para a comandante, a nova forma de atuação chega para somar. “Pelo que estamos vendo nos últimos dias, esse projeto pode trazer bons resultados, já que com a bike, temos uma agilidade maior no atendimento”.
Equipe tem seis agentes
“E-bike Patrulhamento”
- É uma Iniciativa da Guarda Civil Municipal de Vitória (GCMV), em que os agentes usam bicicletas elétricas para realizar o patrulhamento.
- O objetivo é alcançar áreas de difícil acesso para viaturas e motocicletas na realização das rondas preventivas.
- Atualmente, há uma equipe de seis agentes em atuação divididos em dois turnos. A fiscalização é feita de 6h às 18h.
- As bicicletas usadas no patrulhamento foram doadas pela Receita Federal.
Pontos de atuação
- As equipes atuam em ciclovias e trechos de calçadas compartilhadas de regiões como Enseada do Suá, Praia do Canto, orla de Camburi e Orla do Canal.
- Aos sábados, o patrulhamento também ocorre na Ilha das Caieiras, em São Pedro.
Capacitação
- Os guardas passaram por treinamento específico para o uso das bicicletas elétricas, com conteúdos sobre legislação, manutenção dos equipamentos, técnicas de pilotagem defensiva e procedimentos operacionais.
Orientação
- Além do patrulhamento habitual, as equipes têm sido abordadas para dar orientações sobre o uso seguro das bicicletas elétricas.
Acidentes com bikes elétricas
- 2024 - 45 casos
- 2025 - 303 casos
- 2026 - 623 casos
Municípios com mais acidentes
- 1º Vila Velha - 334
- 2º Vitória - 238
- 3º Serra - 127
- 4º Linhares - 61
- 5º Cariacica - 38
Principais lesões
- Escoriações leves - 389
- Lesão na cabeça - 207
- Escoriação média - 143
Vítimas
- 86 tiveram lesões graves desde 2023
- 11 pessoas morreram
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