“As pessoas estão aprendendo a tolerar a solidão”, diz especialista
Especialistas alertam que conexão digital não substitui vínculos profundos e convivência real
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Diante de rotinas aceleradas, relações mais superficiais e vínculos instáveis, as pessoas estão se acostumando a viver sozinhas?
“Evitaria dizer que as pessoas estão simplesmente 'se acostumando' a viver sozinhas. Em muitos casos, elas estão aprendendo a tolerar a desconexão, não necessariamente a desejá-la”, afirma o doutor em Psicologia Elizeu Borloti, especialista em Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC) e professor titular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Para ele, há uma diferença grande entre autonomia e dessocialização. “Muita gente desenvolve independência prática, mas continua carente de vínculo profundo. Isso aparece como vida funcional por fora, mas empobrecida por dentro”, destacou.
“Na privacidade da clínica psicológica vemos pessoas altamente competentes em tarefas, mas com dificuldade de intimidade, pedido de ajuda, espontaneidade e expressão autêntica de afeto”.
E há quem associe a solidão ao tempo empregado com as redes sociais. Segundo apontou a pesquisa realizada pelo Family Talks em parceria com a consultoria Market Analysis, quanto maior for o estresse com a vida digital, maior a solidão. Dos que relatam estresse alto com as redes sociais, 61,2% são solitários. Elizeu reforça que rede social não é “vilã” por definição.
“Ela pode aproximar, manter laços e reduzir isolamento, sobretudo quando serve para contato real. O problema é o tipo de uso. Quando vira comparação, vigilância, exposição, busca de validação ou consumo passivo de vida alheia, ela tende a amplificar solidão”.
A psicóloga Déborah Ramos, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e com formação Gerontologia e Psico-Oncologia, reforça que, apesar da tecnologia ter vindo para ajudar a aproximar, conexão nem sempre é sinônimo de vínculo.
“Ela não substitui a qualidade do vínculo e a entrega da relação. É preciso ter, sim, uma troca mais profunda seja olho no olho ou em um tempo dedicado àquele momento. A maneira que temos usado a rede social não garante uma relação de qualidade. A pessoa pode estar conectado a muitas outras e, no final do dia, se sentir sozinha, porque conexão não garante vínculo, profundidade e intimidade”, ressalta Déborah.
Amizades no curso de bordado
Mesmo estando casada, a aposentada Sandra Lúcia Nicola, de 67 anos, se sentiu “sem rumo” quando se aposentou da enfermagem.
“Fiquei procurando o que fazer para sair de casa. Eu já havia comprado a máquina de bordar computadorizada, mas sentia falta de conversar e ver gente”.
Foi quando ela soube que havia um curso de bordado em uma igreja perto de sua casa.
Ela então resolveu ir até o local, e lá encontrou com a amiga Cristina Angélica Antunes, de 63 anos, que também é aposentada.
“Me matriculei e amei. Toda segunda-feira à tarde estou lá, há cinco anos. Conversamos, bordamos e lanchamos, é maravilhoso”, conta Sandra.
A aposentada ressalta que não se sente solitária. “Estou muito bem! Voltei a fazer musculação por indicação da minha filha, que é cardiologista, faço bordado à mão e à máquina. Vivo feliz da vida”, afirmou.
Como lidar com a solidão
A psicóloga Déborah Ramos, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, dá algumas dicas para ajudar a lidar com a solidão.
Entender o tipo de solidão
O primeiro passo é identificar que tipo de solidão está sendo vivida. Nem sempre ela está ligada à falta de pessoas, mas pode ser falta de companhia, de conexão profunda ou dificuldade de estar sozinho.
Alinhar expectativas
Mais importante que quantidade de pessoas é a qualidade das relações e o que realmente faz falta.
Buscar conexões
Frequentar grupos e ambientes com interesses em comum facilita criar relações reais, como comunidades religiosas, centros de convivência, cursos e grupos de atividades físicas. Também é preciso refletir: “estou me abrindo e investindo nos vínculos ou apenas esperando?”.
Rever o digital
Excesso de redes sociais pode aumentar a sensação de solidão. Reflita sobre: quanto tempo é gasto nas telas e quanto isso substitui interações reais.
Buscar ajuda
Se a solidão for intensa, procurar apoio profissional pode ajudar a entender e lidar melhor com o sentimento.
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