Europa anuncia retaliação a tarifas de Trump nesta quinta
Reação europeia, que aguardava uma sobretaxa ainda mais alta, de até 25%, deve ser anunciada na manhã desta quinta-feira (3)
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No que chamou de "Dia da Libertação", Donald Trump anunciou 20% de tarifa linear sobre todos os produtos importados da União Europeia. O bloco, "muito duro nas negociações", em sua descrição, foi colocado quase no topo da lista de países que mostrou em cartaz, nesta quarta-feira (2), nos jardins da Casa Branca, atrás apenas da China, que foi retaliada em 37%.
A reação europeia, que aguardava uma sobretaxa ainda mais alta, de até 25%, deve ser anunciada na manhã desta quinta-feira (3) pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. No Reino Unido, o secretário de Negócios pediu calma. "Os EUA são nosso aliado mais próximo, portanto, nossa abordagem é manter a calma e o compromisso de fazer esse acordo, que esperamos que atenue o impacto do que foi anunciado hoje", declarou Jonathan Reynolds.
Segundo um porta-voz, a retaliação deve incluir também a resposta do continente para os 25% sobre a importação de automóveis, que afetam sobretudo as montadoras alemãs, responsáveis por entregar 445 mil carros no valor de US$ 24,8 bilhões apenas no ano passado. Também está nos planos de Bruxelas responder às tarifas sobre aço e alumínio, que já estão em vigor.
A comissão tem ainda uma lista de 99 páginas de mercadorias que está sob consulta de países-membros e empresas da UE e deve engordar a retaliação nas próximas semanas.
Em janeiro, pouco depois da posse de Trump, Von der Leyen chegou a afirmar que um acordo negociado seria possível entre dos dois lados do Atlântico, como, por exemplo, a UE comprar mais gás dos EUA, algo que já vem ocorrendo desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, mas poderia ser feito em volume maior.
Com os insistentes sinais de intolerância do presidente americano, o discurso da presidente da Comissão Europeia foi mudando de tom. Nesta semana, ela afirmou no Parlamento Europeu que o bloco tinha "muitas cartas" na mão e um "plano sólido" para reagir ao aguardado tarifaço do presidente americano.
Entre as cartas está a Lei de Mercados Digitais (DMA), que entrou em vigor em 2022 e tem como objetivo garantir que as maiores empresas de tecnologia não inviabilizem rivais menores. Em tese, o bloco poderia multar Apple e Meta, proprietária do Facebook, nos próximos dias por supostamente violar suas regras.
"Começa a parecer que o DMA é uma espécie de taxação sobre as empresas americanas", afirmou Andrew Ferguson, presidente da Comissão Federal de Comércio dos EUA, em um seminário nesta quarta-feira (2). A legislação é preocupação antiga das big techs e estaria entre os motivos da aproximação do setor com Trump pouco antes de sua posse.
Bruxelas tem ainda outras opções de revide: restringir atuação de banco em negócios na Europa, impedir que empresas americanas participem de licitações para contratos com o governo europeu e até limitar direitos de propriedade intelectual.
O setor de serviços é um dos poucos em que os EUA têm superávit comercial, EUR 110 bilhões (R$ 664 bilhões), segundo dados da UE.
Se o cardápio de opções é variado, o problema é o consenso entre os 27 países sobre quais ferramentas são mais adequadas. França e Itália, por exemplo, temem retaliações específicas contra a indústria de vinhos, já ameaçada com tarifa de 200% por Trump, e a Irlanda quer evitar um êxodo de multinacionais americanas que usam o país como sede na Europa.
Em entrevista ao Financial Times, Giorgia Meloni declarou que a "UE não deveria ser infantil" em sua reação. A premiê italiana se coloca como interlocutora do presidente americano, apesar de o bloco não lhe conferir tal status. Após o anúncio de Trump, declarou que as sobretaxas eram um erro e que era preciso evitar uma guerra comercial.
As autoridades europeias avaliam ainda uma ferramenta comercial extrema, o Instrumento Anti-Coerção, também chamado de "bazuca", que foi idealizado durante o primeiro mandato de Trump. Ele concede amplos poderes para a UE enfrentar uma guerra comercial, com cotas, tarifas e até mesmo restrições ao investimento estrangeiro. Outra opção radical seria barrar os bancos americanos do mercado de compras públicas na Europa, que gira em torno de EUR 2 trilhões (R$ 9,67 trilhões).
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