Itamaraty vai ter muito trabalho
Confira a coluna de domingo (30)
O Brasil encara uma agenda diplomática intensa em 2025. A imprevisibilidade que reina em Washington (EUA) e repercute inevitavelmente em nosso entorno aumenta a responsabilidade do País como líder regional e player de nível mundial. O desempenho inicial tem sido bastante promissor.
Vale ressalvar, de início, que o Itamaraty não é o dono da agenda. Superadas as esquisitices ideológicas do governo anterior, a agenda externa volta a ser organizada em função das prioridades identificadas pelos órgãos governamentais e pelos setores representativos da sociedade, prioridades que são selecionadas tendo em vista os objetivos permanentes do País e as oportunidades detectadas no exterior.
Entre os nossos interesses permanentes, a paz e a cooperação regionais ocupam lugar proeminente. No entanto, existem à nossa volta alguns focos de potencial intranquilidade, que precisam ser monitorados.
A Argentina de Javier Milei, por exemplo, se assemelha ao Brasil de Bolsonaro, ao se mostrar mais inclinada a desenvolver relações com o governo americano do que com os vizinhos.
Daniel Noboa, do Equador, vai na mesma direção e não se sabe o que fará, perdendo ou ganhando as eleições presidenciais de 13 de abril. Por sua vez, Nicolas Maduro, além dos problemas internos, montou uma bomba-relógio ao designar o Essequibo como novo estado venezuelano.
As organizações multilaterais são o foro natural para o tratamento de tendências preocupantes. Nas Américas, porém, a gestão desastrosa do ex chanceler uruguaio Luis Almagro vinha tornando a OEA (Organização dos Estados Americanos) irrelevante, escanteada das principais questões.
Findo o mandato de Almagro, o Brasil empenhou-se no sentido de assegurar uma mudança na chefia e no astral da Organização. Em 10 de março, o ex-chanceler do Suriname Albert Ramdi foi eleito por unanimidade, tornando-se o primeiro diplomata caribenho a comandar a Organização.
A embaixadora Maria Laura Rocha, secretária-geral do Itamaraty, assinalou que a escolha consensual de Ramdi é um bom início para comprovar que, apesar dos pesares, consensos ainda são possíveis nas relações internacionais.
Entre os pilares temáticos para o corrente ano, não há dúvida de que as presidências do Brics e da COP-30 têm a primazia. Por coincidir com a eleição de Donald Trump, a presidência brasileira do Brics assume uma visibilidade ainda maior, e a nossa responsabilidade aumenta na razão direta das dificuldades operacionais previsíveis. O lado positivo foi evidenciado nas recém-concluídas visitas ao Japão e Vietnã.
Cônscio das suas seculares tradições, o Japão convida, por ano, apenas um país para fazer uma visita de Estado, aquela caracterizada por maior apuro protocolar e por mais alto grau hierárquico nas tratativas diplomáticas. Acresce que nenhum país havia sido convidado desde a pandemia do covid.
Comemora-se em 2025 o 130º aniversário das relações bilaterais, o que aumenta a boa vontade para tratar de assuntos relevantes, como a expansão do comércio, inclusive com o Mercosul, e a cooperação científico-tecnológica.
Nesta área, um tema de particular relevância fez parte das conversas, qual seja a participação japonesa num projeto de recuperação de 40 milhões de hectares degradados no Brasil. A parceria com o Japão foi essencial para a transformação do cerrado no centro mundial do agronegócio, daí a expectativa de que o novo projeto já começou a gerar. Tanto no Japão, quanto no Vietnã, a COP-30 foi uma das pautas principais.
Nesse contexto, o financiamento para a transição energética dos países em desenvolvimento é o pepino herdado da reunião precedente, no Azerbaijão, uma vez que o montante de US$ 300 bilhões, acordado em Baku, está longe do US$ 1,3 bilhão avaliado como indispensável pelos negociadores brasileiros.
As trepidações geopolíticas mundiais, e a parte que toca ao Brics nesse contexto, foi outro tema essencial em Tóquio e Hanói, e vão continuar pautando as visitas futuras de Lula.
Entre essas, uma das mais aguardadas é a visita à Rússia, em 8 de maio, por ocasião das comemorações do Dia da Vitória sobre a Alemanha de Hitler. É curioso que a aliança entre EUA e União Soviética, que definhava em 1945, ganhou novo significado com a simpatia entre a Rússia de Putin e os EUA de Trump, que não deverá perder a festa em Moscou.
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